Mediação Social e Intercultural: Lacunas na Formação e Prática
Este artigo analisa criticamente a formação dos mediadores sociais e interculturais, salientando que a insuficiência do domínio cultural das comunidades compromete a eficácia da mediação. Defendemos que o papel do mediador exige uma compreensão profunda dos valores, crenças e códigos comunicativos, indo muito além da simples competência linguística para assegurar uma intervenção integrada e culturalmente sensível.
Palavras-chave: Mediação social e intercultural; Formação académica; Imersão cultural; Profissionais do terreno; Interculturalidade; Diferenças culturais.
Introdução
A crescente complexidade das sociedades contemporâneas, marcada pela diversidade cultural e pela intensificação dos fluxos migratórios, impulsiona a procura por mediadores sociais e interculturais. Estes profissionais são tipificados como pontes que facilitam a comunicação e a resolução de conflitos entre grupos de diferentes origens culturais e sociais. Contudo, a validade da prática mediadora é posta em causa quando a formação destes profissionais revela uma insuficiência no que concerne ao conhecimento aprofundado das culturas e das dinâmicas sociais das comunidades onde atuam. Surge, pois, a questão central: se o mediador social e intercultural não compreende a cultura e as especificidades sociais do grupo com o qual trabalha, pode a sua intervenção ser considerada válida? Estudos recentes e a literatura especializada indicam que a formação deficiente, aliada a uma lacuna de conhecimento prático, compromete a eficácia da mediação (Casa-Nova, 2019; Prudêncio, em preparação).
Abordagem Teórica e Prática da Formação
Nas instituições de ensino, os currículos destinados à mediação social e intercultural frequentemente contemplam conceitos teóricos e técnicas de resolução de conflitos, mas deixam de abordar a imersão cultural e o contacto direto com a realidade das comunidades. Um mediador que domina técnicas de comunicação não violenta e os princípios da negociação, mas que não possui uma experiência vivencial dos valores, crenças e normas de uma determinada comunidade, está fadado a cometer erros graves. Tais falhas podem minar a confiança entre as partes envolvidas e agravar situações de conflito, evidenciando a importância de uma formação que conjugue teoria e prática.
Adicionalmente, é crucial referir que a lacuna na formação não afeta unicamente os mediadores per se (por si mesmos), mas também os trabalhadores das áreas humanas e profissionais que atuam em proximidade com as populações – como assistentes sociais, professores, profissionais de saúde e outros agentes de intervenção social – que, por vezes, não dispõem do conhecimento intercultural necessário para lidar com as diferenças culturais de forma eficaz. Esta deficiência formativa é uma realidade em Portugal, onde autores como Marques (ano) salientam a necessidade urgente de integrar a competência intercultural na formação de professores para responder à diversidade presente nas escolas. Esta situação reforça a necessidade de uma revisão dos métodos de ensino, integrando a imersão cultural e o contacto direto com as comunidades.
Desafios na Comunicação Intercultural e Social
As dificuldades na mediação social e intercultural vão para além da barreira linguística e incluem, fundamentalmente, as particularidades dos códigos culturais e das comunicações não verbais. Um dos problemas identificados reside na abordagem da interculturalidade, onde por vezes se incute nos jovens a ideia de que somos todos "iguais". Esta perspetiva é criticada pela UNIR POVOS - Associação, que defende que tal abordagem formata os jovens para acreditar numa igualdade homogénea, ignorando as singularidades individuais, mesmo entre gémeos. A UNIR POVOS - Associação propõe a substituição da frase estereotipada "somos todos iguais" por "somos diferentes e não existe problema algum".
Gesto do "Joinha" ou “Fixe” (👍):
Em contextos como o Brasil ou Portugal e outros países ocidentais, este gesto é amplamente positivo. Contudo, em Portugal, comunidades de migrantes como os iranianos podem interpretá-lo como ofensivo, estando igualmente mal recebido em determinadas regiões do Médio Oriente, Grécia, Rússia e em alguns países africanos.
Sinal de "ok" (👌):
Embora em Portugal e no Brasil o sinal signifique aprovação, entre migrantes da Venezuela pode adquirir uma conotação sexual, e com turistas franceses ou belgas pode sugerir que o assunto em questão não possui relevância ou valor.
Diferenças nos estilos de comunicação também se evidenciam nas interações entre brasileiros e portugueses. Por exemplo, enquanto os portugueses tendem a uma comunicação direta (ex.: “Isto está errado”), os brasileiros optam por estratégias mais indiretas (ex.: “Podemos tentar de outra forma”). Além disso, no seio do próprio território português, variações regionais como o uso pausado do silêncio no Alentejo em contraste com o dinamismo de Lisboa – podem originar interpretações equivocadas se não forem devidamente compreendidas pelo mediador.
O Papel do Mediador e o Domínio da Interculturalidade e Social
É importante sublinhar que o papel do mediador de mediação social e intercultural não se esgota na habilidade de falar diferentes idiomas. Embora a “polilinguagem” seja uma ferramenta essencial, a mediação eficaz exige competências que transcendam o simples discurso. O mediador deve possuir a capacidade de interpretar as nuances culturais e sociais, compreender as hierarquias sociais, identificar subtilezas da comunicação não verbal e integrar o conhecimento empírico com uma sólida formação teórica.
Neste sentido, a função dos mediadores sociais e interculturais consiste em agir como verdadeiros facilitadores do diálogo, na medida em que interpretam e contextualizam conflitos com base num conhecimento profundo das tradições, valores e dinâmicas sociais das comunidades envolvidas.Esta abordagem torna-se ainda mais relevante face à crescente necessidade dos profissionais que atuam em áreas de proximidade – que, sem os devidos conhecimentos de interculturalidade e das dinâmicas sociais, podem falhar em reconhecer as especificidades culturais e, involuntariamente, reforçar estereótipos e preconceitos. Como referido neste artigo (Prudêncio, em preparação), ao referir os contributos de Casa-Nova (2019), sublinha-se a importância desta compreensão abrangente.
Conclusão
Em síntese, a formação de mediadores sociais e interculturais em Portugal enfrenta desafios significativos que comprometem a validade da sua intervenção. Os currículos académicos existentes, predominantemente teóricos, não proporcionam a experiência prática e a imersão cultural necessárias para uma mediação verdadeiramente eficaz. Esta lacuna educativa não afecta apenas os mediadores, mas também outros profissionais das áreas humanas que operam em contacto directo com as comunidades, cuja preparação para lidar com a diversidade cultural e social se revela insuficiente.
É imperativo que as instituições académicas repensem os seus programas, integrando metodologias que promovam o contacto directo com as realidades culturais e sociais e valorizem os saberes tradicionais. Apenas desta forma se poderá reconhecer que o efectivo papel do mediador social e intercultural vai muito para além da simples competência linguística, tornando-se um agente de transformação e compreensão numa sociedade cada vez mais diversa.
Referências
Casa-Nova, M. J. (2019). Contributos de Maria José Casa-Nova. In Educação para todos: os invisíveis, os discriminados e os outros (pp. 9-13). Direção-Geral da Educação. Recuperado de https://dge.mec.pt/sites/default/files/EPIPSE/contributos_de_maria_jose_casa_nova.pdf
Cigana, C. (2007). Guia para a Intervenção com a Comunidade Cigana nos Serviços de Saúde. Recuperado de https://www.gitanos.org/publichealth/HealthGuide/Portugues.pdf
Hrustič, T. (2018). Appellations of Roma, Sinti, Gypsies and travellers in the opinions of the framework convention for the protection of national minorities. Slovenský národopis, 66(4), 452-466.
Pollmann, C. F. (2015). Atitudes e práticas das forças policiais face à comunidade cigana (Dissertação de mestrado, Universidade Católica Portuguesa (Portugal).
Prudêncio, B. (em preparação). A formação deficiente em mediação social e intercultural: Uma crítica à validade da prática sem fundamentos culturais [Manuscrito não publicado].
Silva, M. D. C. S. (2011). Inclusão Escolar de Crianças e Jovens de Comunidades Ciganas: Práticas Pedagógicas Formais e não-Formais no Âmbito do Programa Escolhas (Dissertação de mestrado, Universidade de Lisboa (Portugal).